segunda-feira, 11 de março de 2013

CORPO E MOVIMENTO: A PSICOMOTRICIDADE COMO FORMA A DE COOPERAÇÃO NO ENSINO DE CRIANÇAS COM DIFICULDADES DE LEITURA E ESCRITA.




Marcos Leandro de Assis Leite

RESUMO

O objetivo deste artigo é apresentar um corpo de conhecimentos que vem sendo construído no âmbito da motricidade humana. Particularmente entendendo a Educação Física como educação motora, que contribui com o processo de alfabetização dos escolares em uma proposta pedagógica interdisciplinar.
Palavras-chave: educação física, psicomotricidade, corporeidade, alfabetização, leitura e escrita.

ABSTRACT

            The objective of this article is to present a body of knowledge that has been builtwithin the human motricity. Particularly understanding Physical Education as motoreducation, which contributes to the process of school literacy in an pedagogical proposal intedisciplinar
Key-Words: physical education, psychomotricity, corporeity literacy, reading and writing.     

INTRODUÇÃO

A corporeidade[1] vem se constituindo num dos mais interessantes temas de reflexão na área de educação, em especial da Educação Física[2] (EF), talvez seja pelo fato de que o movimento é a primeira manifestação na vida do ser humano, pois desde a vida intra-uterina realizamos movimentos com o nosso corpo, no qual vão se estruturando e exercendo enormes influências no comportamento. Lima (2008) afirma que as primeiras evidências de um desenvolvimento mental normal são manifestações puramente motoras. Dito de outro modo, a corporeidade é o corpo em movimento, envolvendo o conhecimento do mesmo, por meio da Psicomotricidade[3]. Se o conhecimento do próprio corpo fica prejudicado, aparecem as dificuldades de aprendizagem frente à leitura e a escrita. 
Nossos movimentos expressam o que sentimos nossos pensamentos e atitudes que muitas vezes estão arquivados em nosso inconsciente. De acordo com Rodrigues (2009), o corpo é uma construção biocultural, ou seja, por meio das ações sobre o meio físico com o meio social e da interação como ambiente social, processa-se o desenvolvimento e a aprendizagem do ser humano. Para Freire (2009), a aprendizagem formal está presente de corpo inteiro, pois o ser que pensa é também o ser que age e que sente, o sujeito realiza-se e se constrói, pela intenção, pelo desejo, pelos sentidos, pela emoção, pelo movimento, pela expressão corporal e criativa.
Desse modo, o trabalho com o corpo e com os preceitos da psicomotricidade permitem fortalecer e consolidar a importância desta prática à adaptação das vivências corporais e estímulos vindos do exterior. Rodrigues (2009) diz que o conhecimento e a aprendizagem dependem da existência do mundo, o qual é inseparável do corpo, da linguagem e da história social.
 Nesse sentido, utilizando atividades em sua maioria lúdicas almeja-se melhorar o desenvolvimento das crianças, estimulando assim seu cognitivo e o processo de aquisição da leitura e escrita. Diversos autores citam a importância do trabalho motor para o aprendizado das crianças, dentre estes citamos Petry (1988) que reafirma a importância do desenvolvimento dos conceitos psicomotores, ressaltando que as dificuldades de aprendizagem em crianças de inteligência média podem se manifestar quanto à caracterização de letras simétricas pela inversão do “sentido direito-esquerda”, como, por exemplo, b, p, q ou por inversão do “sentido em cima em baixo”, d, p, n, u, ou, ainda, por inversão das letras ora, aro, oar.
O objetivo deste artigo é apresentar um corpo de conhecimentos que vem sendo construído no âmbito da motricidade humana, visando contribuir com o processo de leitura e escrita, no que tange à idade motora, dos escolares, reconhecendo a EF como uma disciplina motora e não apenas física, que permite a cooperação com outras disciplinas, em um trabalho interdisciplinar maior e com objetivos pedagógicos voltados para a área da alfabetização. Particularmente para as dificuldades de aprendizagem dos alunos em aprender a escrever e a ler.

DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

A aprendizagem é um processo natural para criança, que aprende desde o dia em que nasce e em todos os dias de sua vida, ao conviver em uma sociedade organizada e com ricos conhecimentos culturais. Segundo Santos,

a aprendizagem e a construção do conhecimento são processos naturais e espontâneos do ser humano que desde muito cedo aprende a mamar, falar, andar, pensar, garantindo, assim, a sua sobrevivência. (...) Sendo assim, a aprendizagem escolar (...) resulta de uma complexa atividade mental, na qual o pensamento, a percepção, as emoções, a memória, a motricidade e os conhecimentos prévios estão envolvidos e é justo onde a criança deve sentir o prazer em aprender (SANTOS et al, 2009, p. 06).


No mundo tecnológico em que vivemos hoje, as informações são repassadas em segundos pelo mundo da internet e das mídias[4], porém em se tratando de aprendizagem escolar, muitos alunos sentem grandes dificuldades nas séries iniciais do Ensino Fundamental com relação à apreensão da leitura e da escrita. Para Codeço (2010), dificuldade pode ser caracterizada como sendo “obstáculos, barreiras ou impedimentos, que, [quando] ligados à aprendizagem, dificultam ou impedem o processo de aquisição de conhecimento” e Le Bouch (1987) aponta três aspectos que cooperam nos problemas com leitura e escrita, são eles: atraso ou defeito de linguagem, problemas psicomotores e déficit da função simbólica nos casos de debilidades.
Sendo assim, Le Bouch (1987) afirma que cumpre “a escola o papel de tentar amenizar estas dificuldades por meio de métodos pedagógicos atualizados, que objetivem ajudar a criança a desenvolver-se da melhor maneira possível, rumo a sua verdadeira preparação para a vida”.
A aprendizagem da leitura e escrita são processos importantes e complexos de fundamental importância para a vida em sociedade, visto que é pré-requisito para conhecimentos futuros, para as relações interpessoais e para a comunicação com o mundo que o circula. Santos (2009) diz que

uma criança que não tenha solidificado realmente sua alfabetização poderá tornar-se frustrada diante da educação formal, terá deficitário todo seu processo evolutivo de aprendizagem, apresentará baixo rendimento escolar e pouco a pouco sua auto-estima estará minada, podendo manifestar ações reativas de comportamento anti-social, bem como levá-la ao desinteresse e, muitas vezes, até a evasão escolar (p. 17-18).


Isso nos mostra o quanto à leitura e a escrita são benéficas para o ser humano, e muitas vezes não valorizamos ou somos pouco incentivados a esta prática tão saudável para a vida. Codeço (2010) acrescenta que “para aprender a ler e escrever, a criança precisa ter adquirido um nível suficiente de desenvolvimento intelectual, afetivo e social” além, também, de condições psicomotoras como “esquema corporal, lateralidade, orientação espacial e temporal” que poderão ser ricamente trabalhadas nas aulas de EF nas séries iniciais, claro, caso o professor tenha consciência de seus benefícios.
A criança que não tem uma boa noção de seu esquema corporal, não percebe com nitidez o que está ao seu lado, do outro, acima, abaixo, na frente, atrás, ou seja, das noções que deverá ter de si em relação ao espaço. Sendo assim, o desenvolvimento motor inadequado, segundo Codeço (2010) coopera para que, “a criança não tenha facilidade para perceber a posição que as letras ocupam nas palavras umas em relação às outras” cooperando para retardo no aprendizado e compreensão do processo de leitura e conseqüentemente o da escrita.

EDUCAÇÃO FÍSCA NA ESCOLA
O brincar, o divertir, o rir e o movimentar fazem parte da vida do ser humano desde seu nascimento até a idade adulta. Estes momentos são capazes de gerar um bem maior para o homem que é a socialização, aprendizado de regras e também condutas sociais. Quando os indivíduos propõem-se a participar de alguma atividade corporal, este consegue por meio do movimento e de seu corpo expressar seus sentimentos, sua cultura e definir sua personalidade, tanto é verdade que alguns psicólogos utilizam de jogos para fazer suas análises com crianças.
A EF, dada sua importância para o desenvolvimento motor de crianças e adolescentes, é considerada pela nova LDBEN[5] em seu Art. 26 como sendo um componente curricular obrigatório da Educação Básica, período que compreende a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Mas infelizmente o que se percebe na prática é a desvalorização da disciplina enquanto prática de ensino e expressão de um ser que “sente” que “pensa” e que “vive” em função do movimento principalmente na Educação Infantil. Freire (2009, p.18) reforça esta idéia dizendo que “tem muita escolinha que não leva muito em consideração a importância do brinquedo e da atividade física para a criança”.
O mesmo autor ainda critica as escolas de Educação Infantil que tentam precocemente alfabetizar suas crianças, o autor diz que uma criança não vai para a escola apenas para alfabetizar-se, mas sim para ensiná-la a conviver com o atributo decisivo na espécie humana, que é a “imaginação”. Para Freire,
                                                       
o significado, nessa primeira fase da vida, depende, mais que em qualquer outra, da ação corporal. Entre os sinais gráficos de uma língua escrita e o mundo concreto, existe um mediador, às vezes esquecido, que é a ação corporal (FREIRE, 2009, p.18).
           
Tenho observado e concordo com Freire, que a EF deve atuar e ser valorizada assim como as outras disciplinas da escola, e não como uma aula fora da realidade ou auxiliar das outras disciplinas, as aulas de EF trabalharão para que a Atividade Física venha garantir que, de fato, as ações físicas e as noções lógico-matemáticas, que a criança usará nas atividades escolares e fora da escola, possam se estruturar adequadamente.” (FREIRE, 2009, p.21).
O ideal seria que as diversas áreas do conhecimento se reconhecessem como participantes em níveis iguais de cooperação “na identificação de pontos comuns do conhecimento e na dependência que corpo e mente, ação e compreensão possuem entre si” (FREIRE, 2009, p.163). Para seu desenvolvimento, o ser humano depende totalmente de suas condutas motoras e nas aulas, os envolvidos estão, a todo momento, trabalhando e recebendo benefícios em seus campos cognitivo, social e afetivo.
A atividade lúdica que a EF proporciona, aguça a curiosidade e desenvolve o interesse na criança por meio do prazer de brincar, tão necessários ao seu desenvolvimento cognitivo e psicomotor. Nela, a criança vivencia situações que propiciam experiências motoras, e estas possibilitam sua estruturação no espaço e permitem a percepção do seu corpo.
Para o grupo de professores que escreveram o livro Metodologia do Ensino da EF, trata a EF como uma área do conhecimento que discute a cultura corporal[6] e acreditam que a disciplina contribui para a “afirmação dos interesses de classe populares, na medida em que desenvolve “reflexão pedagógica” sobre valores como solidariedade, distribuição em confronto com apropriação, sobretudo enfatizando a liberdade de expressão dos movimentos” (COLETIVO DE AUTORES, 2009, p. 41).
Para os Parâmetros Curriculares Nacionais, é tarefa da EF escolar, portanto, “garantir o acesso dos alunos às práticas da cultura corporal, contribuir para a construção de um estilo pessoal de exercê-las e oferecer instrumentos para que sejam capazes de apreciá-las criticamente”.
Observamos que a EF é uma disciplina, do currículo escolar que trabalha a partir, com e para o movimento. Seu principal objetivo é contribuir para o desenvolvimento psicomotor da criança, que é de suma importância para o sucesso escolar. Além disso, ela proporciona do desenvolvimento do esquema corporal, lateralidade, organização espacial e temporal, coordenação motora, percepção autonomia, conceito de regras, cooperação, atenção, raciocínio e equilíbrio.
Para que a EF nas escolas passe a ser significativa e ganhe posicionamento quanto sua cooperação com o processo de aprendizagem interdisciplinar, faz-se necessário que os professores e profissionais envolvidos mudem suas posturas diante das aulas, trabalhando conteúdos e conhecimentos que venham ser significativos para os alunos que dela participam, procurando retomar o elo que foi perdido e que fez com que a disciplina passasse a ser dissociada do psíquico e afastada das outras disciplinas da escola, descaracterizando assim sua prática.

PSICOMOTRICIDADE, LEITURA E ESCRITA

Historicamente, a EF tem priorizado e enfatizado a dimensão biofisiológica do ser humano. Com o passar dos anos e o avanço nos estudos relacionados à Educação, surgiu a psicomotricidade, que de forma atuante passa a apresentar uma visão mais abrangente de homem deixando de considerá-lo meramente como biológico e passando a concebê-lo segundo uma visão mais abrangente na qual se considera o processo social, histórico e cultural desse homem em formação. Molinari e Sens (2008) confirmam dizendo que,
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a psicomotricidade, nos seus primórdios, compreendia o corpo nos seus aspectos neurofisiológicos, anatômicos e locomotores, coordenando-se e sincronizando-se no espaço e no tempo, para emitir e receber significados. Hoje, a psicomotricidade é o relacionar-se através da ação, como um meio de tomada de consciência que une o ser corpo, o ser mente o ser espírito, o ser natureza e o ser sociedade (p.86).


Desta forma a psicomotricidade está diretamente ligada à afetividade e à personalidade dos indivíduos, visto que, como dizem as autoras, “o indivíduo utiliza seu corpo para demonstrar o que sente (...) uma pessoa com problemas motores passa a apresentar também problemas de expressão e na aprendizagem”. Para Saúde (2004), psicomotricidade

 é a ciência que tem por objetivo o estudo do homem através do seu corpo em movimento, nas relações com seu mundo interno e externo. Procura educar o movimento, ao mesmo tempo em que desenvolve as funções da inteligência (p. 11).


Procurando unir idéias de Wallon e Piaget, Ajuriaguerra (1959) tentou criar uma explicação teórica ou conceitual e terapêutica para o termo psicomotricidade, na qual se refere ao termo como sendo
técnica que, pelo recurso ao corpo e ao movimento, se dirige ao ser humano na sua totalidade. Ela não visa à readaptação funcional ou a supervalorização do músculo, mas sim, a fluidez do corpo no envolvimento. O seu fim é permitir uma melhor integração e um melhor investimento da corporalidade, uma maior capacidade de se situar no espaço, no tempo e no mundo dos objetos é facilitar, é promover, uma melhor harmonização na relação com o outro (Ajuriaguerra apud Codeço, 2007, p.5).


Segundo Barreto citado por Molinari e Sens (2008), “O desenvolvimento psicomotor é de suma importância na prevenção de problemas da aprendizagem (p.89. Por estarem mais ligados ao aprendizado da leitura e escrita iremos centrar nossa atenção discorrendo sobre a lateralidade, estruturação espacial e temporal e do esquema corporal, buscando argumentos que venham servir como base de valorização do desenvolvimento de práticas com as crianças que trabalhem estas habilidades.
A lateralidade, segundo Farias é

é a capacidade de controlar os dois lados do corpo juntos ou separadamente, em si e em relação ao objeto. Capacidade de estabelecer relações utilizando o conceito de direita e esquerda, como mostrar o lado direito e esquerdo do colega que está à frente (p.03).


            A lateralidade ocorre em três níveis: olho, mão e pé. Cada parte do corpo tem sua própria dominância de acordo com a atividade a ser desenvolvida. A lateralidade só vai ser definida à medida que a criança atravessar todas as fases do seu desenvolvimento por volta dos seis aos oito anos, anterior a esta definição, a criança precisa vivenciar experiências com ambos os lados do corpo. Barbosa diz que,

a partir dos sete anos a criança será capaz de perceber que direita e esquerda não dependem somente uma da outra, mas também da posição de outras pessoas em relação a ela e de seus deslocamentos, acontecendo então, uma descentralização de seus pontos de referência (2005, p. 26).


Também a partir desta idade, as crianças que não estiverem com a lateralidade definida apresentarão dificuldade na aprendizagem escolar, pois pode implicar em confusões de orientação espacial, e ela poderá apresentar dificuldades em discriminar letras que se diferem quanto a sua posição espacial. A criança facilmente confunde “b” com “d”, “q” com “p”, “6” com “9”, o “u” com “n” entre outros. A lateralidade é um pré requisito para que se possa assimilar os conceitos de desenvolvimento espacial.
A estruturação espacial pode ser conceituada tendo como base a noção de percepção que a criança tem do seu próprio corpo no espaço, seguidamente da posição dos objetos em relação a si própria, e finalmente, da relação dos objetos entre si, ou seja, da relação desta criança com o ambiente que a cerca (LE BOUCH, 1987, p. 224-225).
Por meio dos jogos e brincadeiras desenvolvidos nas aulas de EF, as crianças vão se estruturando espacialmente de acordo com sua ocupação no espaço e em relação aos seus pares nas brincadeiras (espalhados, em fileiras, duplas, círculos e colunas).
Para que a criança tenha um bom desenvolvimento espacial, faz se necessário que esta tenha uma boa imagem corporal, visto que seu corpo servirá de referencial para todas as atividades e posicionamentos dos objetos junto às brincadeiras. Para Ferreira apud Barbosa (2005), dificuldades nesta área, trarão como conseqüência, problemas como: dificuldade de reconhecimento direito-esquerda, incapacidade de orientar-se no meio ambiente, dificuldades na aquisição da direção gráfica, escrita das letras ou números em espelho e a não percepção na ordem das palavras (p.22).
Entende-se por estruturação temporal, a capacidade de situar-se em função da sucessão dos acontecimentos (antes, durante e depois), da duração dos intervalos, da renovação cíclica de certos períodos (dias da semana, meses, duração de aulas e período escolar) e do caráter irreversível do tempo.
Barbosa valoriza o desenvolvimento da estruturação temporal declarando sua importância para criança dizendo que,

por intermédio do ritmo é que ela terá uma boa orientação no domínio do papel, na escolarização, construindo palavras de forma ordenada e sucessiva na utilização de letras, umas atrás das outras, obedecendo a certo ritmo e dentro de um determinado tempo. Na comunicação oral, também estruturará o som das palavras, diferenciando-os, aprendendo a ler com mais facilidade (2005, p. 23).

A criança com alterações nesta área, não consegue organizar o tempo de execução de suas atividades, deixando de concluí-las por perder tempo demais em uma ou outra atividade, não consegue dar expressão às palavras no momento da leitura, não reconhecendo assim sua continuidade, velocidade e pausas, ou seja, a dinâmica da leitura.
As estruturações do tempo e do espaço acontecem de maneira interligada e integrada à formação do esquema corporal, ambos formam a base do processo de aprendizado da leitura e da escrita.
O esquema corporal é o conhecimento que a criança tem de si, do seu jeito de ser, do próprio corpo em relação a si mesmo, aos outros, ao espaço e aos objetos que o circundam, seja em movimento ou estático. Este conhecimento abre as possibilidades de trabalhos com vivências corporais e de aprendizado.
“A construção do esquema corporal, se dá a partir da maturação neurológica do sistema sensório motor e da relação com o corpo do outro” (BARBOSA, 2005, p 18).
Sem uma boa noção do esquema corporal, a criança dificilmente consegue desenvolver uma estruturação espaço-temporal, se ela não reconhece a si mesma, fica mais complicado reconhecer o espaço que a rodeia. A mesma autora ainda alerta que
Crianças com perturbações no esquema corporal podem apresentar dificuldades no aspecto visomotor e apresentar dificuldades na leitura e escrita. Letras e frases ficam confusas e geralmente a criança troca p por q, b por d (BARBOSA, 2005, p. 18).
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Como já foi dito, o processo de aprendizagem é um processo complexo que envolve sistemas e habilidades diversas, inclusive as motoras. Na maioria das crianças que passam por dificuldades de aprendizagem, a causa do problema não está localizado no período escolar em que se encontram, mas  no nível de suas bases, ou seja, nas estruturas de desenvolvimento. Assim sendo, é imprescindível que a criança, durante o período pré-escolar, antes de iniciar a sistematização do processo de alfabetização, adquira determinados conceitos que irão permitir e facilitar a aprendizagem da leitura e da escrita. Esses conceitos ou habilidades básicas são condições mínimas necessárias para uma boa aprendizagem, e constituem a estrutura da educação psicomotora.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo surgiu da curiosidade e da não aceitação do tratamento recebido pelas atividades ligadas ao plano motor e a EF no ambiente escolar. Surgiu da crença de que a EF não é apenas mais uma disciplina na escola, mas sim da escola, com funções, objetivos e colaboradora no processo de alfabetização.
Desse modo, o artigo apresentou um corpo de conhecimentos que constrói a motricidade humana, ou seja, que entende a EF como uma prática social pedagógica de educação motora e contribui com o processo de alfabetização dos alunos de forma interdisciplinar.
O trabalho de pesquisa e as leituras só nos deram mais certeza e felicidade em saber que a corporeidade e aprendizagem andam lado a lado. Em cada estudo podemos angariar mais conhecimentos que nos demonstram que aprendizagem e os elementos psicomotores são interdependentes e caminham juntos. Quando a criança conhece seu próprio corpo e suas possibilidades, dificilmente apresentará dificuldades de aprendizagem na leitura e escrita. De forma geral observamos e encontramos subsídios suficientes para nossa própria prática e a dos possíveis leitores deste artigo comprovando que uma boa motricidade é requisito para uma boa alfabetização.
Nesse sentido, o estudo mostrou que a Psicomotricidade é uma forma simples de se resgatar o lúdico, o prazer nas brincadeiras amparado pelos professores e colegas, é também um momento de aprendizagens sociais, atitudinais e sentimentais. É um momento que resgata o sorriso das crianças nas brincadeiras tradicionais ao ar livre que estão tão esquecidas pelo fato de hoje boa parte das crianças viverem em apartamentos fechados e apertados fora da realidade corporal normal para sua idade. Fez com que reforçasse em nós a compreensão de que todos somos seres puramente corporais, e o se movimentar é o primeiro pré-requisito para se ter VIDA.

REFERÊNCIAS


BARBOSA, Michelle Veloso. A importância da EF enquanto Educação Psicomotora na Alfabetização. Niteroi: UCM, 2005. (trabalho monográfico elaborado para obter o título de Especialista em Psicomotricidade pela Universidade Candido Mendes).

BERNADINO, Márcia Cristina Silva. Dificuldades de Aprendizagem na leitura e na escrita na 1ª série do ensino fundamental. Campinas: PUCC, 2007. (Trabalho monográfico apresentado objetivando o título de especialista em Educação e Psicopedagogia pela Pontifica Universidade Católica de Campinas).

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais - Educação Física. Brasília: A Secretaria, 2001.

CODEÇO, Ana Isabel Mendes. A importância da intervenção psicomotora em crianças com dificuldades de aprendizagem específicas da leitura. São Paulo: UTL, 2011. (Trabalho elaborado objetivando título de mestre em Reabilitação Psicomotora pela Universidade Técnica de Lisboa - Faculdade de Motricidade).

FARIAS, Gerson Carneiro. Elementos Básicos do Desenvolvimento motor. Goiânia, IDEA, 2010. (Texto organizado para disciplina de Neuropsicomotricidade do curso de Neuropedagogia do IDEA de especializações).

FILHO, Lino Castellani et al. Metodologia do Ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 2009.

FREIRE, João Batista. Educação de corpo inteiro: teoria e pratica da Educação Física. São Paulo: Scipione, 2009.

_______. Educação como prática corporal. São Paulo: Scipione, 2003.

LE BOUCH, Jean. Educação psicomotora: psicocinética na idade escolar/ Jean Le Buch. Porto Alegre: Artmed, 1987.

LEITE, Marcos Leandro de Assis. Aero Jump: a “nova” forma de consumo das academias de ginástica. Goiânia: ESEFEGO, 2006. (Trabalho de monografia elaborada para obtenção de título em Licenciatura Plena em Educação Física pela Universidade Estadual de Goiás).

MARTA, Scarpato (org). Educação Física - como planejar as aulas na educação básica. São Paulo: Avercamp, 2007.

MENDES, F.S. e COSTA, P.H.L. Educação Física Escolar: Desenvolvendo Conhecimento sobre o Corpo. Disponivel em: http://www.eefe.ufscar.br/pdf/flaviane.pdf. Acessado em 18 de setembro de 2011.

MOREIRA, Carlos Evandro. Educação Física escolar: propostas e desafios. Jundiaí: Fontoura Editora, 2006.

MOLINARI, A M.P. e SENS S. M. S. A Educação Física e sua Relação com a Psicomotricidade in: Rev. PEC. Curitiba: v.3, n.1, p.85-93, jul. 2002-jul. 2003.

PETRY, R. M. Educação Física e Alfabetização. Porto Alegre: Kuarup Ltda., 1988.

RODRIGUES, Judite F. Corporeidade e Aprendizagem: Uma Relação Político-Pedagógica. 2009. Disponível em: http://www.webartigos.com/artigos/corporeidade-e-aprendizagem/14042/. Acessado em 18 de setembro de 2011.

SANTOS, Carla Cristina Pereira dos. et al. Dificuldades de aprendizagem em leitura e escrita nas series iniciais do ensino fundamental. Santos: UNIMES, 2009. (Trabalho de Conclusão apresentado como parte dos requisitos para obtenção do título de Licenciatura em Pedagogia da Faculdade de Educação e Ciências Humanas UNIMES).

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Tisi, Laura. Educação Física e alfabetização. Rio de Janeiro: Sprint, 2007.



[1] Corporeidade é a maneira pela qual o cérebro reconhece e utiliza o corpo como instrumento relacional com o mundo. A corporeidade guarda três dimensões que mantêm uma relação indissociável e complexa: Fisiológicos (físico), psicológicos (emocional afetiva) e espirituais (mental-espiritual sendo o universo físico, o universo da vida e o universo antropossocial), em outras palavras, uma relação com o corpo, o espaço e o tempo (WIKIPEDIA, 2011).
[2] A Educação Física é uma disciplina que trata, pedagogicamente, na escola do conhecimento de uma área denominada de cultura corporal. Ela será configurada com temas ou formas de atividades, particularmente corporais como: jogo, esporte, ginástica, dança ou outras, que constituirão seu conteúdo. O estudo desse conhecimento visa apreender a expressão corporal como linguagem. (COLETIVO DE AUTORES, 2009, p. 62).
[3] É a ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. A educação psicomotora deve ser considerada como uma educação básica para a escola primaria. Ela condiciona todas as aprendizagens pré-escolares e escolares; estas não podem ser conduzidas a bom termo se a criança não tiver conseguido tomar consciência de seu corpo, lateralizar-se, situar-se no espaço, dominar o tempo; se não tiver adquirido habilidade suficiente e coordenação de seus gestos e movimentos. (LE BOUCH, 1987, p. 11).
[4]  Formas de comunicação em massa com ultra-velocidade de comunicação como a televisão, rádio, jornais revistas, cinema (MOREIRA, 2006).
[5]  Sigla que corresponde as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
[6] Abordam os conteúdos da Educação Física como expressão de produções culturais, como conhecimentos historicamente acumulados e socialmente transmitidos (PCN-MEC, 2001, p.25).

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